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Saída pela tangente…

Foi especial entrar aqui depois de alguns meses, para escrever! Desde outubro passado muitas coisas mudaram… … …o fato é que agradeço bastante o contato de amigos distantes e de pessoas que não conheço sobre o último ‘post’ que será de fato o último publicado nesse espaço – sem contar esse é claro!

O propósito de registrar nosso processo de recomeço se cumpriu. Agora os ventos são outros, assim como as imagens e os sons! Organizamos um domínio próprio na internet onde unificamos os nossos blogs (meu e de Leila) em um site mias completo que serve não só como veículo de expressão mas de contato com as pessoas que nos são mais próximas!

Aos que quiserem acessar o endereço novo, peço que envie por aqui uma mensagem pessoal e terei o prazer de responder. No mais, espero que o nosso relato tenha de alguma forma acrescentado algo de bom aos leitores que por aqui passaram. Obrigado pelos comentários – nem todos publicados, afinal, isso aqui não é uma democracia!!! -, pelas correções de português e de francês e pela presença!

Estarei presente por mais alguns meses apenas para verificar as mensagens, mas não mais escreverei aqui! Meu último ‘post, será o primeiro do nosso site, os outros, deixarei aqui por mais algum tempo também!

Forte abraço e… …à la prochaine!!!

Meu caro senhor,

gostaria de abrir mão do tratamento formal, mas velhos hábitos por vezes passam a fazer parte da alma… …entendamos isso não como distanciamento mas como respeito e admiração – moedas não muito trocadas hoje em dia. Peço desculpas pelo veículo dessa mensagem – uma carta -, pois farei pequenas confissões à você, que de fato, deveriam ser ditas em pessoa, mas imaginei que ao escrevê-las em momento oportuno, poderia registrar aquilo que o tempo apagaria da memória.

Por todos os anos de minha vida procurei sentir o calor que não me pertencia de fato, para me manter vivo… …dessa vida que a morte é velha amiga e cúmplice… …o calor de pai que não tive por perto, o calor de família, pois pelas circunstâncias da vida, a família que tive, precocemente se fez distante – nunca do coração, mas a uma distância que impedia o contato, o abraço… …o calor. Agi meio como um vampiro, mas ao contrário dessas criaturas que destroem a fonte, alimentei essas chamas com o que tinha de melhor, em parte para me mostrar merecedor, em parte para dizer “-obrigado por permitir que eu permaneça mais algum tempo aqui!”

Não é fácil escrever isso! Palavras podem ferir… …e geralmente o fazem quando retratam as verdades que a vida nos impõe, mas espero que, como eu, aqueles que lêem essas linhas, entendam que somos feitos na mesma medida, daquilo que tivemos e daquilo que nos faltou. Deveríamos aprender a agradecer igualmente as duas coisas! E nesse sentido, lhe escrevo para agradecer-lhe, nem tanto pelas coisas que você fez por mim, mas pelas escolhas que você fez na vida – escolhas que no fim das contas, mudaram minha vida… …minha existência para sempre!!!

Desde o primeiro instante em que nos conhecemos, eu quis mostrar que estava a altura de seus valores, talvez por isso o tratamento formal que se solidificou nesses últimos 9 anos e 10 meses de nossas vidas. Quis mostrar-lhe disposição para o trabalho, bom caráter, senso de justiça, coragem, humildade… …bem o tipo de coisa que um filho tenta mostrar para um pai para dizer “olha, eu cresci e sou um homem digno…”, enquanto espera um afago e um sorriso como resposta! Em alguns momentos, tive a impressão de ter conseguido lhe mostrar isso… …apenas a impressão… …ambos cultivamos o silêncio, o que dificulta que as intenções se mostrem… …mas tive essa impressão!

Temos muito pouco em comum nas coisas que as pessoas vêem: nunca fumei, não bebo, não gosto de pescar, meus conhecimentos de engenharia se limitam a construir aviõezinhos de papel, e de engenharia elétrica então, não vou muito além de saber que as tomadas dão choque. Não conheço a região de Igarapava, passei minha vida toda longe do campo, e definitivamente, não entendo nada de churrasco! Imagino que não sou bem o genro que você chegou a desejar para sua filha (e digo pensou, pois hoje como pai de uma menininha linda, eu bem sei que é impossível sonhar com algo do gênero!!!), mas de alguma forma eu deveria compensar isso… …me restavam as coisas que num primeiro momento as pessoas não vêem – geralmente as coisas relacionadas ao caráter, e aí sim encontrei coisas que temos em comum e investi muito em tentar trazê-las à tona para conquistar o seu respeito!

Conquistar o seu respeito mostrando compromisso: a decisão de eu e Leila ficarmos noivos 1 ano após o início do namoro e na mesma leva marcar a data do casamento. Talvez seja a primeira vez que menciono isso: o motivador dessa decisão foi o fato de que no final daquele ano – 1999 – eu terminaria meus estudos e iria pra São Paulo começar minha carreira… …um homem de 28 anos que namora no interior uma mulher de 19 e vai pra uma grande cidade começar a vida para depois se casar… …parece um pouco aquelas histórias de caixeiro viajante… …eu precisava – na verdade eu queria – mostrar compromisso. Me lembro que eu e Leila, na volta de Ribeirão dentro do monza do tio Écio pedimos uma opinião pro tio Écio e pra tia Edite. Memórias que ficam e são muito boas!

Eu precisava… …eu queria – mostrar coragem, e no almoço do domingo, “pedi a mão da Leila em casamento” (mais uma moeda não muito trocada hoje em dia)! Decidimos nos casar na pequena igreja em Aramina – queria mostrar reverência à história de sua família (história que é muito importante pra Leila e será pros nossos filhos lhe garanto!). E da mema forma reverência ao seu sobrenome, que eu não porto, mas meus filhos carregam como último nome – a forma que eu achei de lhe dizer que a sua linhagem, levará o sobrenome de sua família adiante!

São pequenas coisas eu sei, que de modo prático não servem muito pra coisa alguma, mas foi a maneira que encontrei de tentar me aproximar de você pelas suas virtudes, e mostrar que se não sou o genro de seus pensamentos, sou um homem que conhece o valor dessas virtudes, e que no futuro deseja ser reconhecido por elas da mesma forma que você é reconhecido hoje, por suas filhas, sua esposa, seus amigos, seus irmãos e irmãs e todos aqueles que de alguma forma convivem com você.

As viagens são longas, e seguiremos agora cada um seu próprio caminho… …agora, em lados opostos da vida que conhecemos. Mas a sua imagem, sua palavra, sua presença ficam! Ficam na correnteza do rio, na beleza do horizonte, nos olhos de Leila, nas mãos de Mira Serena, na palidez do pequeno Michel Albert e na reverência singela e constante que faço pela memória do que você é, e sempre será.

Tenho muito orgulho de ter tirado a foto que encerra essa carta… …ela eternizou um momento que não é possível descrever em palavras… …a dualidade que a matemática nega: você segue seu caminho, ao passo que o que você é fica conosco.

Tomando um último sopro desse calor que, de fato, não me pertence, deixo-lhe um beijo e um abraço de filho… …e a certeza de levá-lo sempre conosco como exemplo, como história e referência!

 

Um beijo ao grande… …do pequeno que fica… …e continua!

 

13 de janeiro de 2006

13 de janeiro de 2006

Aos Bravos

os braços…

…num abraço que não tem nome, idade ou piedade!

 

Dedico esse ‘post’ aos jovens Leandro Chagas e Yuri Fernandes, pela inestimável lição de vida!

 

 

O REI E O FALCÃO

Adaptação de James Baldwin

Genghis Khan foi um grande rei e guerreiro.
Uma certa manhã, longe das guerras, 
saiu cedo de casa a fim de passar o dia caçando na floresta. 
Muitos amigos foram com ele. 
Todos, carregando seus arcos e flechas, 
seguiam felizes em suas montarias. 

Acompanhavam-nos os serviçais, 
conduzindo os cães pela retaguarda.
Seus gritos e risadas retumbavam na floresta. 
Esperavam abater muitos animais 
que trariam para casa ao final do dia.
O rei levava ao punho seu falcão predileto, 
pois naquela época essa ave era treinada para a caça. 
A uma ordem do dono, o pássaro alçava vôo, 
e do alto vasculhava a floresta. 
Ao avistar um cervo ou uma lebre, 
mergulhava velozmente sobre a presa, qual uma flecha.

Genghis Khan e seus caçadores passaram 
o dia a cavalgar pela floresta. 
Não encontraram, porém, tanta caça quanto esperavam.
À tardinha, decidiram retornar.
O rei estava habituado a cavalgar pela floresta, 
e conhecia todas as trilhas. 
Tendo o grupo escolhido o caminho mais curto para casa,
 ele tomou uma estrada mais longa 
que passava por um vale entre duas montanhas.

O dia fora quente, e o rei tinha sede. 
Seu falcão amestrado alçara vôo, deixando-o só. 
O pássaro saberia encontrar o caminho de casa.

O rei prosseguia lentamente. 
Conhecia uma fonte de águas límpidas
 em alguma paragem perto da trilha. 
Se ao menos pudesse encontrá-la naquele momento!
 Mas os dias quentes do verão 
haviam secado todos os córregos da montanha.

Mas eis que, para sua alegria, 
avistou um pouco de água escorrendo 
pela beira de uma pedra. 
Haveria de encontrar a fonte logo acima.
 Na estação chuvosa, 
as águas corriam ligeiras naquele ponto; 
mas agora gotejavam lentamente.

O rei apeou da montaria, 
tirou do embornal um cálice de prata e 
começou a aparar as gotas que caiam lentamente da pedra.
A água demorava para encher o cálice; 
e o rei tinha tanta sede que mal podia esperar. 
Finalmente, estava quase cheio.
 Levou-o aos lábios e estava prestes a sorver o primeiro gole, 
quando de repente um zunido cruzou os ares 
e o cálice foi derrubado de suas mãos. 
A água derramou-se toda.

O rei procurou ver quem fizera aquilo. 
Fora seu falcão.
O pássaro voou de um lado para outro 
e acabou pousando nas pedras, perto da fonte.
O rei pegou o cálice e tornou 
a recolher as gotas de água. 
Desta vez não esperou tanto tempo. 
Quando estava pela metade, levou-o à boca.
 Mas antes que o cálice lhe tocasse os lábios, 
o falcão deu outro mergulho, 
derrubando-o novamente.

O rei começou a ficar zangado. 
Empreendeu mais uma tentativa, 
e pela terceira vez, o falcão o impediu de beber.
O rei, bastante irritado, gritou:
- Como te atreves a fazer isto? 
Se eu pusesse minhas mãos em ti, 
torcer-te-ia o pescoço!

Mais uma vez, o rei encheu o cálice.
 Porém, antes de levá-lo à boca, sacou da espada.

- Agora, Senhor Falcão, é a última vez, disse ele.
Mal proferira as palavras, 
o falcão mergulhou e derrubou-lhe das mãos o cálice. 
Mas o rei já esperava por isso. 
De um golpe, acerrou o pássaro em pleno vôo. 

E logo o pobre falcão jazia aos pés do dono, 
sangrando até morrer.
- É o que mereces por teus caprichos
- disse Genghis Khan.
Entretanto, ao procurar o cálice, 
encontrou-o caído entre duas pedras, 
onde não conseguia alcançar.

- Mesmo assim, vou beber desta fonte
- disse consigo mesmo.
E pôs-se a galgar a parede íngreme 
da rocha para chegar até o lugar
 de onde a água escorria. 

A tarefa era árdua; 
e quanto mais subia, mais sede sentia.
Por fim, atingiu o local.
 E havia, de fato, uma nascente;
 mas o que era aquilo dentro da poça, 
ocupando-lhe quase todo o espaço? 
Uma enorme serpente morta, e das mais venenosas.
O rei parou.
 Esqueceu-se da sede. 
Pensou apenas no pobre pássaro morto ali no chão.

- O falcão salvou-me a vida!
- gritou
- E o que fiz em troca? 
Era meu melhor amigo, e eu o matei.

Desceu a escarpa, 
tomou cuidadosamente o pássaro 
nas mãos e o colocou no embornal.
 Subiu na montaria e partiu ligeiro,
 dizendo consigo:
- Aprendi hoje uma triste lição,
 que é nunca fazer coisa alguma com raiva.


O Livro das Virtudes – Uma Antologia de William J. Bennett;

 

 

 

Editora Nova Fronteira, 25ª impressão.
(texto reproduzido a partir de http://www.eliane-poesias.kit.net/rei.html)

 

Avec cette ‘post’ je vais finir les descriptions de notre arrivée à Montréal et notre adaptation initiale à la Belle Province… … …et oui: je commence a écrire en français aussi, parce que j’ai fait des amis à Montréal que parlent pas portugais, et que j’ai invité à lire mon blog.

Três considerações:

1 – Encerro com esse ‘post’ os relatos sobre nossas primeiras impressões. No dia 23 de setembro, completaremos 4 meses aqui, e a vida já tomou um ritmo que não faz mais nos sentirmos recém chegados. Já deu pra sacar como são as coisas. De agora em diante, é bola pra frente!

2 – Começo a escrever em francês! Fiz amigos aqui, amigos quebecois de diferentes origens que não falam português, e que eu convidei a lerem o blog, logo, tentarei sempre que possível escrever uma parte dos ‘posts’ em francês… …sem programinha de tradução… …vai na raça mesmo e “sem medo de ser feliz”! Correções de francês, português, javanês e afins, nesses últimos ‘posts’ (sim, disse últimos) são bem vindas e diria até NECESSÁRIAS!!!

3 – Não pretendo continuar a escrever por muito mais tempo! Não aqui… …esse blog já serviu ao propósito pelo qual foi criado. Preciso me dedicar ao resto de minha vida, e agora que moro em um lugar onde tenho mais tempo, mais respeito e nenhum medo, posso me dedicar a outros projetos… …antigos!

Je écris cette texte en hommage aux amis d’Impulsion-Travail (Rossana Bimbau, Van Ho, Rachid, Shainez, Véronica, Doris, André). Merci de votre amitié!

Moi, Verónica, Shahinez, Rachid, Rossana et Van Ho.

Moi, Verónica, Shahinez, Rachid, Rossana et Van Ho.

Allez-y!!!

Impulsion-Travail

Le 7 juillet, à 9 heures pille, j’ai commencé les activités dans le groupe de recherche d’emploi à l’Impulsion-Travail. Le bout du cours est la connaissance du marché de travail et la connaissance de différentes techniques de recherche d’emplois. Pendant 5 semaines – à temp pleine (9 à 16:30 h) – la conseillère Véronica Bustos, nos avons aidée à developper les bonnes stratégies de recherche. J’ai appris beaucoup et aprés ça, je me sens préparé pour entrer au marché de travail québecois.

No dia 7 de julho, às 9 da manhã em ponto, começavam as atividades do grupo de ‘Recherche d’Emploi’ oferecido pela Impulsion-Travail. O curso (chamemos assim!) tem o objetivo de traçar uma estratégia de busca de emprego individual para todas as pessoas que buscam uma colocação no mercado de trabalho. Não importa se você é imigrante e está começando a procurar trabalho, ou se você é quebecois e ficou desempregado e tenta voltar ao mercado… …isso já é muito legal.

O curso dura 5 semanas – ‘temps pleine’ (das 9h às 16:30h) e aborda todos os aspectos que envolvem a busca por emprego – desde a ‘connaissance de sois’, passando pelo C.V., entrevista, formas de abordagem, telefone e a busca mesmo (é como a Catherine dizia: aqui você tem que ir atrás, não basta só ficar na base do C.V.).

Passadas as cinco semanas, tive um bom panorama da minha área – existem postos mas é o que se chama aqui de ‘marché caché’, ou seja, os postos não são anunciados sem antes se fazer uma busca interna – logo, é preciso sair à busca – telefonar, se oferecer, mostrar interesse e dinamismo e… …aprendi bastante na Impulsion-Travail, e recomendo esse tipo de atividade – faz bem pro francês e pra integração com outras pessoas na mesma situação!

Na última semana, depois de ter entrado em contato com alguns empregadores, sem no entanto uma resposta definitiva, o caríssimo guardião Mohamed, mencionou que no ‘centre d’accueil’ em que ele e a Fabrícia estavam trabalhando durante o verão, estavam precisando de alguém para ficar com crianças durante a noite. Me interessei, eles me levaram lá, fiz a entrevista e fui contratado ‘tout suite’. Comecei em 16 de agosto (86 dias depois de nossa chegada, e confesso à vocês, cerca de 3 semanas após ter começado a procurar de fato). Trabalho 3 noites por semana, estou bem contente pois não é o trabalho que procuro, mas é o meu primeiro trabalho e esse gostinho é especial, além de ser muito importante como referência futura de um empregador québecois, e importante pro bolso também, é claro! Mais uma vez (ai ai!) nosso muito obrigado ao tio Nino e à tia Fá pelo toque e pela confiança, pois a gente sabe que existe uma certa responsabilidade em indicar alguém! Merci!

 

La dernière journée!

He he! Energie pour commencer le travail. Allez-y! Merci mes amis!!!

 

Francisação

No dia 19 de agosto, começou a Francisação pra Leila. Tivemos de fazer um esquema especial para que ela pudesse estudar pois não conseguimos ainda uma vaga para o Michel no ’service de garde’ (isso até merece um ‘post’ à parte!). Realmente, o curso tem ajudado bastante o desenvolvimento do idioma, não só pra ela mas para todos nós em casa. Nossos primeiros cheques já chegaram – o pessoal que gosta de acreditar em promessas curtem ouvir essas coisas (esse tema talvez inspire o último ‘post’).

A vida segue, e com ela o verão se vai, o outono já se faz presente e o inverno prometido se aproxima! As folhas já começam a ‘envermelhar’ (existe isso?)… …e a temperatura agora, já não alcança os 20 graus com freqüência. Que venha esse inverno!!

 

…o Passageiro lê no verso de uma embalagem de margarina a seguinte frase:

-“O que conduz o mundo é o espírito e não a inteligência.” Foi possível perceber um sorriso maroto, antes que ele se virasse para seguir em frente!!!

 

lespassagers.wordpress.com

 

“…Tell him he can look me up if he’s got the time!”

Leiam…

(escrito em 17 de setembro de 2008 às 22h 58minutos (brasília) por Juca Kfouri, em virtude da morte aos 75 anos, de Lourenço Diaféria, um dos maiores cronistas (corintiano) da vida de São Paulo (http://blogdojuca.blog.uol.com.br/). Li, conheci, me reconheci e recomendo a leitura pelo que a alma deseja e pelo que não sabemos ainda… …é imprescindível sabermos o que somos e o que não somos capazes de fazer.)

 

Lourenço Diaféria

Lourenço Diaféria

 

 

 

Homenagem a um grande – 3

 

Por causa do texto abaixo, Lourenço Diaféria foi preso pela ditadura no Brasil.

A menção ao Duque de Caixas, patrono do exército, foi considerada uma afronta, como coisa de comunista.

E Diaféria era só corintiano, sensível como poucos, doce e decente, nem mesmo era de esquerda.

Ditaduras são assim: ridículas.

De tão fortes, são fracas, fragílimas, com medo da própria sombra.

Todas elas. 

HERÓI. MORTO. NÓS.

 

(Crônica publicada em 1º de setembro de 1977, na “Folha de S.Paulo”, mantida a grafia original da época) 

Lourenço Diaféria 

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.

O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra. 

Que nome devo dar a esse homem? 

Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor. 

Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas consequências. 

O herói redime a humanidade à deriva. 

Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major. 

Está morto. 

Um belíssimo sargento morto. 

E todavia. 

Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias. 

O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar. 

O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos. 

No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos. 

Esse sargento não é do grupo do cambalacho. 

Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais. 

É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa. 

O povo prefere esses heróis: de carne e sangue. 

Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais. 

É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos. 

Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar. 

Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos. 

E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis -tarde demais.

 

 

“Viver não é nada; continuar vivendo é que constitui ato de bravura.”

“O sentido da vida é buscar qualquer sentido.”

“Uma das injustiças da vida é a responsabilidade por estar vivo.”

(do livro “O Avesso das Coisas – [aforismos]” de Carlos Drummond de Andrade)

 

…e a vida toma o seu curso!

Temos uma casa e muitas coisas a fazer, mas o mais importante pra nós era imprimirmos uma rotina sólida para nossos filhos – recompor nossa vida familiar. Primeiro passo: cultivar alegria, como se faz com plantas. Em Montréal, isso é fácil!

 

Os Parques

Num raio de 1 Km de nossa casa, temos… …6 parques com brinquedos, areia, área livre pras crianças, muito verde, muito esquilo e dois deles tem piscina pública. Moramos ao lado de uma biblioteca, e como já disse, podemos andar sem medo pelas ruas! Leila tem fotografado outros parques um pouco mais distantes nos finais de semana… …pra nós que sempre cultivamos o hábito de andar, isso é o suficiente pra nos divertirmos por anos!

 

  

 

...população nativa...

...população nativa...

O Idioma

O Canadá é um país bilíngue… …pra inglês ver!!! Não se fala francês fora do Québec!!! Em Montréal sim, na maioria dos lugares você pode se comunicar em francês ou inglês – quanto mais pro centro, mais anglófono! Eu falo inglês com muita facilidade desde a faculdade, no entanto, eu não vim pro Québec pra falar inglês… …sou um ‘paladino québecois!’ (coisa do Erasmo!). Quando o cara me diz ‘good morning’, eu respondo educadamente ‘Bonjour monsieur’, ou então, estampo um sorriso ordinário e digo ‘en français, s’il vous plaît’! – tio Nino que ensinou!

Mas leva tempo pra acostumar os ouvidos e tirar a rolha da boca – e olha que sou eu que estou dizendo hein!!!

O idioma foi sim uma barreira, principalmente para Mira, então, após alugarmos e mobiliarmos o apartamento, assumimos a prioridade de ’surmonter cette barrière’ (Miguel, a idéia é você aprender o francês… …sacou?)! Começamos então a falar em francês dentro de casa, e lutar contra o problema (que nós já tínhamos conhecimento aí no Brasil) de encontrar vaga em uma Garderie.

 

Service de Garde

Aqui no Québec o ensino é público e obrigatório. No entanto isso vale a partir dos 6 anos da criança (completos até setembro do ano em vigor). Antes disso, as crianças podem ser matriculadas no Service de Garde, que é privado, apesar da maioria ser subsidiado. Existem 3 possibilidades:

As Garderies, as C.P.E.s e os Service de Garde Millieu Familiale. As duas primeiras se diferenciam no sistema de gestão apenas (100% privado ou comunitário, respectivamente), e a terceira são casas de família em que, geralmenre, “educatrizes” (do termo em fracês Éducatrice’), se encarregam de 8 a no máximo 12 crianças (creio eu), sob uma proposta pedagógica semelhante a das Garderies e C.P.E.s.

Encontrar um Service de Garde é um problema, reconhecido pelo próprio governo. Costuma levar de 6 meses à 1 ano para conseguir uma vaga.

Nas Garderies e C.P.E.s só consegui ‘lista de espera’ e algumas nem isso. Parti então para o Service de guarde familiale, e a 300 metros de casa, achamos uma senhora – Mme. Bouvert que tinha uma vaga – tempo de busca: cerca de 20 dias. Uauuu!

Essa semana vai fazer um mês que Mira Serena começou a freqüentar a Garderie, e o francês dela já nos surpreende!!!

Première journée à l'école!

Première journée à l'école!

Pontos a serem destacados:

- nos pediram – na garderie – um ‘certificat de naissance provinciale’. Achei estranho pois como posso ter um ‘certificat provinciale’ se meus filhos não nasceram aqui? Mas é assim mesmo! É preciso enviar documentos originais (ou cópias certificadas), traduções (por um tradutor da OTTIAQ), um pedido por escrito e comprovante de residência para o  ’bureau d’état civile’ à Québec. ‘C’est gratuit’, mais pour demander la copie du certificat de naissance provinciale, il faut payer CAD 15,00′ (é legal descobrir que você já consegue escrever em francês!).

- existem garderies à 7 dólares/ dia (são as subsidiadas), mas isso pode variar até 35 dólares/ dia, você define suas possibilidades. Visitei uma C.P.E. onde apareceu uma vaga pra Mira, que não gostei do ambiente. Onde ela está, pagamos 7 dólares e estamos muito satisfeitos (nós 3!) – como na procura do apartamento, é preciso andar e contar com sua intuição.

 

…e o imigrante aplicado segue a cartilha!

Ao completarmos 2 meses de Québec, a casa estava montada e Mira estava na escola. De lá pra cá, cumprimos com os demais compromissos de imigrante – segundo o guia Apprendre le Québec’: quer fazer as coisas direito, siga o guia!

- fui à reunião com o agente d’emploi (8000, Langelier). Mais conversa e ele passa as informações de acordo com o seu perfil: no meu caso, orientações para sair de casa e se integrar à vida cultural da cidade, e orientações sobre a famijerada Recherche d’Emploi’: “vá ao C.L.E., faça o pedido para a Évaluation comparative des études effectuées hors du Québec’, procure ‘esse’ ou ‘esse’ organismo de ‘recherche d’emploi’, procure um ‘Centre d’action bénévole’, e participe de um desses grupos de discussão promovidos pelo MICC. O cara é muito gente-boa, mas ele é pago pra isso, e pra ele você é um número… …ele não vai perder o sono, nem fazer hora-extra por que você está com dificuldades de adaptação ou de arrumar trabalho… …ele parece gente-boa porque o sistema funciona e ponto! E acho que deve ser assim mesmo!!! Quanto a Leila, o agente disse que ela precisa se comunicar bem em francês antes de fazer a reunião dela!

- Me inscrevi para um grupo de discussão sobre a situação sócio-econômica do Québec – quatre demi-journées’ (de 23 à 27 de junho). O nível de informação dá sono à maioria, mas eu aproveitei muito: passar o tempo todo escutando e falando francês em uma situação real de discussão foi ’superbe’. Foi bom perceber que há diferentes tipos de imigrantes, e ver que nossa preparação foi mesmo muito boa – tem muita gente que chega pra botar defeito no sistema (que óbvio, não é perfeito!), que chega sem saber ‘onde está’… …é sério!

 

'Les Réalités Socioéconomiques Du Québec'!

Grupo de estudo: 'Les Réalités Socioéconomiques du Québec' - o mundo inteiro está representado aí!

-Fui ao C.L.E. (‘centre local d’emploi’) e me reuni com o agente que me deu mais informações sobre minha área especificamente e me orientou para procurar organismos de ‘recherche d’emploi’ (já tinha feito isso, numa instituição que se chama ‘Impulsion-Travail’!). Sempre gentis e você sempre sai com a impressão de que está no rumo certo… …o sistema funciona!!!

- Entrevista para a ‘francisação’: você chega o agente te chama, conversa com você e pede pra você fazer uma redação. Por causa das crianças a Leila esperou que eu terminasse a minha reunião para fazer a dela – que estava marcada para meia hora depois da minha. Os agentes foram bem compreensivos em relação a isso – aliás, com criança na história, o pessoal daqui é sempre muito gente boa!

As cartas de confirmação chegaram pra nós dois – eu nível 3 e a Leila nível 2 no início de julho. Como escolhemos fazer o curso perto de casa (longe de metrô), não foi difícil conseguir as vagas.

- Marquei reunião no ‘Centre Bénévole de Montréal-nord’ e na ‘Impulsion-Travail’ (dias 2 e 3 de julho respectivamente). Reunião no Centre bénévole… …muito bacana (adoro ser avaliado)!

Uma reunião geral na Impulsion-Travail’, e uma outra no dia seguinte, individual. Fui aprovado para fazer o curso deles, que dura 5 semanas a ‘temps pleine’ – só que eu só tinha 2 dias para conseguir a autorização do meu agente de emprego, e só havia mais uma vaga… … …não foi fácil mas no dia seguinte eu estava lá com a autorização!

Começava então minha jornada ‘em busca do emprego perdido’!!!

 

eterno aprendiz das escolhas que fiz…

 

É difícil mas também desafiador, estar em um ambiente em que você não compreende o que dizem, e também não é compreendido! É muito enriquecedor se sentir no jardim de infância aos 36!

VIDA COTIDIANA

Próximo ao 'bureau d'Assurance Maladie'

Próximo ao 'bureau d'Assurance Maladie'

 

Atravessar a rua é uma experiência extraordinária! A preferência é do pedestre – todo mundo sabe e respeita isso! Existem os motoristas que avançam na faixa… …olhe feio, ou reclame com educação (mas com firmeza!), e o cara se desculpa! É, ele não te xinga, nem discute… …se desculpa ou abaixa a cabeça!

 

Metrô - indo pra 'Assurance Maladie'
Metrô – indo pra ‘Assurance Maladie’

 

Andar de ônibus é uma outra experiência extraordinária! Nós compramos o passe mensal (CAD 65,00). O ônibus pára – sem pressa – as pessoas descem, sem pressa, você mostra o passe, e entra geralmente (eu disse geralmente!) com um ‘bonjour’ . Você pega quantos ônibus e quantos metrôs quiser no mês. Se quiser fica o dia inteiro passando pela catraca… …ça va! Não vou discutir política nem economia aqui, mas isso, do ponto de vista da lógica, É JUSTO!

Os horários previstos para os ônibus e metrô são muito próximos da exatidão – você pode se programar e voilá! Funciona!!! Os horários estão disponíveis no site da STM, ou em folhetos distribuidos gratuitamente nos ônibus ou nas estações de metrô… …os horários do “verão”, por exemplo! Quer brincar? Entra lá no site da STM e busque o link Tous Azimuts’‘recherche textuel’ e em seguida Recherche d’une adresse sur l’île de Montréal. Digite o endereço de partida e repita o procedimento para inserir o destino. Clique em ‘calculer’. Dê o horário de partida ou de chegada e voilá!

As pessoas na rua tendem a serem gentis, te comprimentam, mas é só! Ninguém está nem aí pro seu jeito de vestir, falar… …na verdade ninguém te olha! Andar de ônibus carregando uma sacola de garrafas de refrigerante vazias, ou com um monitor de 20 polegadas, dá na mesma – ninguém te olha e ponto!!!

 

O verão aqui é quente pra caramba!!!

 

Todo mundo fica babando quando vê uma criança – dá-lhe Mira e Michel!!!

 

As mulheres aqui é que mandam, e decidem e… …vão pra cima mesmo: dirigem os coletivos, tratores, comandam companias e empinam o nariz e vão embora! E por isso, creio eu, os homens são meio “boca-aberta”. Aqui a mulher usa o nome de solteira, assina o contrato de aluguel… …eu não decido nada legalmente sem a anuência da Leila… …éééé… …é fogo! Você é do tipo machista? Melhor imigrar pro Paquistão!!!

Cadê os muros, grades, cães, cacos de vidro... ...cadê o medo nosso velho companheiro?

Cadê os muros, grades, cães, cacos de vidro... ...cadê o medo nosso velho companheiro?

 

 

 

 

 

As casas e os prédios, parecem ter sido feitas como se a cidade fosse um condomínio fechado: são todas ‘iguais’… …ao mesmo por fora! Olhar para as casas e prédios e NÃO ver grades com flechas, muros com cacos de vidro em cima ou cercas eletrificadas… …dá vontade chorar (até hoje)! Os quintais ficam abertos, os brinquedos das crianças ficam por lá, e ninguém mexe! Janelas na altura do chão, sem grades!

 

Andar na rua: iniciar um processo de imigração, aprender um novo idioma, vender tudo o que tínhamos, desmontar nossa vida e nossa segurança, levar a família para um lugar que você nunca esteve antes… …pessoalmente eu digo que já valeu a pena ter feito tudo isso, pelo simples fato de saber que posso andar na rua com meus filhos sem a MENOR possibilidade de alguém me “derranger”, ou me fazer algum mal! Não estamos no paraíso… …hoje mesmo ficamos sabendo da primeira ocorrência policial, que culminou com a morte de alguém… …um típico caso que no meu entender, me faz sentir mais seguro do que nunca (link com a notícia). Viver em tranquilidade, sem medo… …isso não tem preço!

Dois meses depois, ainda estamos assimilando essas diferenças, mas há duas semanas mais ou menos, uma amiga nos perguntou: -”Tirando a saudade da família, o que vocês mais sentem falta do Brasil?” Pensamos muito, e alguns dias depois respondemos: “NADA!”

 

LE LOGEMENT

Há seis meses impomos à nossa filha uma perda de referência (Michel ainda não conta!)… …onde é a minha casa? Onde estão as minhas coisas? Mira Serena é muito especial e sempre se mostrou muito receptiva às mudanças, mas sabemos que não é bem assim que as coisas funcionam: pode ser na cabeça, mas não no coração! Então desde a primeira semana, saímos à rua… …SOZINHOS e sem falar francês… …há há há, só se eu estivesse a fim de mentir (como outros já fizeram em seus relatos de colonização nas terras geladas… …sem detalhes!).

Nem sozinhos e nem sem falar francês. Além do apoio da família Santos, encontramos o “Guardião” (também conhecido por tio Nino, “Michiê” ou “Petit Robert” entre outras denominações mais íntimas – coisa do Erasmo!). Monsieur Mohamed brindou um – até então – nada ilustre desconhecido, com aquele tipo de atenção de um professor que ensina pelo ‘dom’ aquele aluno que você acha que vale a pena investir tempo (conheço bem isso!). “Cara, você tem que chegar ‘assim’, falar ‘assim’, ‘assim’… …amanhã se você quiser posso te acompanhar a tal hora… …olha como eu vou falar!… … …agora vai você. Sem medo!”

Bem, no dia 4 de junho – exatamente 6 meses depois de ter entregue as chaves de nosso apartamento em São Paulo (4 de janeiro), e depois de umas duas dezenas de visitas decepcionantes -, assinamos o ‘bail’ de um apartamento que hoje chamamos de lar e temos muito orgulho dele e de nossa vida nele. Não nos foi pedido nenhuma garantia: conversamos, pagamos adiantado e assinamos com os passaportes e o NAS.

 

Não foi fácil, mas nunca é fácil aprender! E sinceramente, me irrita ver imigrantes aqui em Montréal que chegam e começam a reclamar das dificuldades que encontramos aqui: o idioma, a desconfiança de algumas pessoas, a própria diversidade cultural da cidade… …ninguém me pegou à força pra vir, eu obtive todas as informações que busquei, e vim por que quis… …pra recomeçar quase do zero! Se quer moleza e jeitinho brasileiro, por favor FIQUE AÍ! A gente agradece!!!

Eu e Leila passamos por esse processo juntos e somos muito, muito, muito gratos aos Cavaleiros dos novos ventos (Elaine, Erasmo, Fabrícia e Mohamed) que nos pegaram pela mão, nos mostraram o que fazer e disseram: -”agora vai!” E na volta nos perguntaram: – “e aí? Como foi?”

 

Les chevaliers... ...par toute la vie!

Les chevaliers... ...par toute la vie!

Não nos pediram nada em troca, e nos ofereceram sem que pedíssemos… …merci do fundo do coração… …mais do que pra nós, vocês fizeram pelos nossos filhos, e isso não preço pra nós! Espero estar a altura e um dia poder retribuir! Merci” do fundo do coração. Vocês são parte da nossa história… …isso não muda muito pra vocês mas faz toda diferença pra nós!!!

Móveis novos – os mais baratos (exceto para o quarto das crianças) mas muito lindos! Electroménagers usagés – olha os chevaliers encore! Peregrinações para transformar uma casa em um LAR…  …no dia 14 de junho entramos no apartamento, nosso apartamento… …ainda sinto o gosto!

 

Vocês sabem o gosto da primeira refeição na sua casa? A gente sabe!!!

Vocês sabem o gosto da primeira refeição na sua casa? A gente sabe!!!

 

OS PARQUES

Haaa… …um post a parte. À la prochaine!

“O Passageiro é quem escolhe o caminho, mas sabe que não é ele quem conduz! Ele tem a coragem da escolha e a tristeza da dúvida.”

Éh, até o espírito parece que não é o mesmo!

A partir do momento em que entramos no corredor do portão de embarque, já não tínhamos mais o mundo que conhecíamos: tudo era novo… …mas a bagagem (na verdade, o excesso dela!) ajudou a amenizar o choque – 6 mochilas, mais 2 filhos, mais os bonecos, mais o pacote verde, não deixaram a gente sentir o que estava ficando pra trás. Pra mim, ficava uma vida que há muito tempo eu queria deixar de ter! Voilá!!!

Rapidamente:

- As crianças favoreceram a passagem pela vistoria;

- Dificuldade em carregar tudo até o portão 21 (creio… …por que nunca pode ser o número 1?);

- Prioridade pra embarcar (viva as crianças!);

- Prioridade na escolha dos bancos (já tinha reservado… …viva as crianças!!);

 

AVANT DORMIR

AVANT DORMIR

- Então, ajeita as bagagens, ajeita as crianças, e enfim, sentamos e suspiramos… …ironicamente olhei pra Leila, e ela olhou pra mim e não me lembro se falamos ou só pensamos algo do tipo: -”já era!” ou “e aí? Vamos ficar aqui mesmo?” ou ainda “será que dá pra descer e voltar amanhã?”… …esperei isso por muito tempo, mas não é fácil deixar a zona de segurança – mesmo sendo a zona (…de segurança é claro…) do Brasil! Pra completar, um pacote verde cheio de coisas do tipo “aquelas coisas que ficam pra sempre!” Merci mon frère!

 

 

Três aeromoças: uma fala inglês e francês, a outra só inglês e a terceira inglês e português de Portugal (quase que eu pedi pra ela falar com a gente em inglês, pois o português dela…ai ai!)… …e voilá, estávamos enfim num mundo que, definitivamente, não nos compreende! Parfait!!

A viagem foi longa, mas confesso que não senti. Fiquei acordado o tempo todo (com o Michel no colo), e nem vi o tempo passar! Pensar na guitarra Rosa… …pacote verde… …pensei na vida inteira: passado, presente e futuro! Leila, Mira Serena e Michel Albert dormiram! Acho que do avião, nada mais a acrescentar (tela individual, comida aceitável, sem contratempos ou turbulência…)… …não me lembro de nenhum outro detalhe importante!

Chegamos em Toronto por volta de 5 horas e qualquer coisa da manhã. Primeira impressão: esse aeroporto é ENORME! Saimos por último do avião. Malas, bonecos e crianças… …primeiro contato: a (santa) funcionária do aeroporto que nos deu carona num daqueles (santos) carrinhos que parecem um jipe… …comunicação… …inglês! A única coisa que saiu de bate-pronto!

Passamos pelo guichê da polícia e fomos para a imigração, e aí você começa a sentir o Canadá: são uns 15 guichês, todos abertos, mas só uma funcionária falava francês. Ela se revesava nos guichês quando solicitada. Logo, quem não falava inglês tomava um longo chá-de-cadeira!

Óbvio: perdemos o vôo para Montréal, mas sem stress: é só marcar para o próximo e esperar 30 minutos! Vôo rápido… …e enfim, depois de 13 meses e 10 dias, eu revia meu amigo Erasmo… …”eu te disse meu velho – pode esperar que de um jeito ou de outro, eu vou!”… … Cheguei!!!

"A amizade é um jeito de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas"! Merci beaucoup!!!

Como já havia lembrado: "A amizade é um jeito de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas"! Merci beaucoup!!!

 

 

 

 

Malas no carro do “Guardião”(aguardem!) e chegamos na casa da Elaine e do Erasmo, que nos receberam realmente de braços abertos e realmente se esforçaram pra nos deixar bem à vontade… …isso fez toda a diferença e seremos eternamente gratos por isso. Espero um dia poder ao menos ter a chance de retribuir um pouco da generosidade e do carinho que recebemos de vocês. Em nome de Leila, Mira Serena e Michel Albert, lhes agradeço do fundo do coração. Merci!

No sábado fomos na missa dos brasileiros e depois jantar num restaurante etíope (comer com a mão!). Muito legal!

Na segunda-feira, pedir a Carte d’Assurance Maladie, e tirar o Numéro d’Assurance Sociale. Na terça, fomos ao 8000, boulevard Langelier para o rendez-vous d’accueil. Recebemos informações iniciais, foi feito o nosso cadastro e recebemos um número cada um. A agente d’accueil nos deu os formulários para o Soutien aux enfants, e marcou o rendez-vous d’emploi, no mesmo lugar alguns dias depois. Pegamos ainda os formulários para o rendez-vous do Cour de français à temp pleine popularmente chamado de francisação.

Ainda na primeira semana, preenchemos e levamos pessoalmente os formulários ao 800, boulevard de Maisonneuve Est. Após alguns dias recebemos pelo correio a carta com a confirmação da nossa reunião de avaliação para o dia 14 de junho.

Uma semana, encaminhamentos iniciais dados, e enquanto nos assustávamos com nossas persepções e comparações iniciais, começamos a busaca pelo nosso apartamento.

São 2 meses de história… …acho melhor dividir em posts pequenos cada período do que escrever um post gigante… …isso não foi uma pergunta, foi uma informação!

Au revoir!!!

Pra pegar a onda tem que estar na hora certa num certo lugar, pra pegar a onda deixa estar, deixe a onda te pegar, deixe a onda te levar!!!”

Vocês já viveram o dia de um sonho realizado? Pois é! É disso que estamos falando!

Chegou o dia! Por três anos eu imaginei as sensações desse dia, e em 22 de maio de 2008, enfim eu vou vivê-lo! Um dia que em suas 24 horas será pra sempre eterno em minha memória e no meu coração. O dia em que as promessas que fiz à minha filha, os sonhos que sonhei com Leila começam a se materializar (ou desmoronar!!!).

Foi exatamente isso que pensei no início daquele dia!!!

Um dia em que cumprimos rituais – o primeiro: foto da família no Fran’s Café da praça Benedito Calixto. Foi assim com a Mira, tínhamos que ter a foto com o Le Petit Michel!

 

 

Minha mãe chegou nas primeiras horas da manhã de Uberaba… …malas prontas… …café da manhã com o Écio Luis, Mariana e Gustavo. Almoço com Todos mais o Marcos, uma tarde que praticamente não existiu… …e de repente estávamos à caminho do Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos-Governador André Franco Montoro. Quase um comboio… …imprescindível para carregar as 6 malas de 32 quilos, a mala de 22 quilos do le petit, mais a bagagem de mão – duas minhas, duas da Leila, uma do Michel Albert, uma da Mira Serena, mais o Stitch de meio metro da Mira Serena.

O trajeto foi, reflexivo e particularmente emocionante… …tipo, a vida passou pela cabeça naqueles 20 ou trinta minutos… … e é uma pena que eu não tenha tirado uma foto para me lembrar, mas duvido que eu esqueço disso algum dia em minha vida: quando você se aproxima do aeroporto, tem uma placa bem em cima da via onde se lê “Aeroporto Internacional” ou coisa parecida!!! Quando passamos por aquele trecho, textualmente me veio em mente a seguinte frase: “A vida que eu conhecia acaba de ficar pra trás!!! Que assim seja!”

E assim foi!!!

No aeroporto, valeu o esforço e a força do Ri e da Mi pelo check in on line (a fila pro check in convencional era enorme, enquanto a do on line tinha apenas três pessoas: eu, Leila e o Écio Luis)!

Declara bens eletrônicos… …tranquilo! Foi até bem rápido! A declaração de porte de valores, fizemos pela internet e isso também agilizou.

Depois foi tentar conversar com todos que nos acompanharam e chegaram depois… …digo tentar pois nossos amigos foram muito, muito generosos na nossa partida.

Muito obrigado:

Écio Luis (sempre presente… …do início dos nossos planos, à última foto em solo brasileiro… …no words); Mamãe (…”vai, voa!”… …o plano foi sempre esse… …nós sempre soubemos!); Marcos (Sei que parecem idiotas… …muito prazer, meu nome é otário… …com a coragem que a distância dá… …explodir as grades e voar… …a diferença é o que temos em comum! Um beijo); Viviane (assim como nós, vida nova… …torcemos por você);  Miguel (É difícil entender a vida sem você por perto, meu velho! … você nunca estará longe!); Roberta (o que a vida nos deu, ninguém pede, poucos entendem… …é bom dizer meias palavras e saber que alguém entende, sente como a gente – obrigado pelo carinho e por estar sempre ao lado… …continuemos!!!); Ian (cuide dos seus pais, eles precisam disso); Merilyn (o coração bate mais forte e a plenitude daquele sentimento de gratidão e de paz se traduz em em sorriso… …a gente se sente por aí!!! (obrigado por isso também Roberta); Liz e irmãzinha (vocês são muito gente boa – novas amigas que parecem amigas de muito tempo. Merci); Papy Sidnei (obrigado por quando mais precisei, ter me dito “sim”, ter deixado chocolate no meu travesseiro, ter tomado café e batido aquele papo de pai…(a gente vai ficando velho e vai ficando chorão!), e ter acreditado… … …); Cleusa (com certeza os verei da próxima vez mais felizas. Obrigado por isso); João Homero (levo muito do que aprendi e vivi com você, meu amigo! A gente não faz essas contas mas já faz tempo… …tempo pra conviver muita coisa. Obrigado pela amizade!); Wilson (sentiremos falta das risadas); Mariana e Gustavo (obrigado pela idéia. Nos vemos lá – pelo menos o Gustavo com certeza!); Mamy Cida (lhe guardo no fundo do coração – você também faz parte do que tenho hoje); Fabinho (se cuida irmãozinho!); Pai, Pedrinho, Raphael e Rafaelly (obrigado por estarem presentes… …até breve); Moacir (a vida está nas mãos de quem sabe disso!); Edmar e Luciana (vocês são pra toda vida! Muito obrigado pelo carinho… …esperamos estarmos à altura!); Cristina, Lito e Bia (valeu pelo telefonema… …valeu tanto quanto a presença de vocês – Lito, a gente segue em frente meu velho amigo!); 

Deixar um passado… …digam o que disserem, foi isso o que fizemos… …e pra mim isso faz parte de minha vida. Desde muito cedo nós humanos buscamos a felicidade, e desde cedo aprendi, compreendi e aprendi a viver a verdade de que a felicidade não é um porto, mas sim a viagem! Pessoas sempre estiveram ausentes em minha vida… …tive de aprender a lidar com isso… …e desde cedo soube que quem é de fato importante sempre está por perto!

Durante todo o dia me lembrei muito de meu padrinho Wladimir, (1951-1979) que sempre, sempre, sempre esteve do meu lado, e por vezes foi a única força que tive pra seguir adiante… …coisas que eu não sei explicar… …meu paizão Antônio Alberto (19xx-2006) que mostrou o caminho com carinho e teria vibrado muito com essa conquista (ele o fez!)… …pessoas que não é a cabeça, mas o coração que identifica e sabe que sim, de fato, sempre estiveram com você…! E sempre estarão, não importa onde você esteja, e em que situação… …”é só abraçar e dizer adeus, até breve”… … … …o abraço foi sincero mas a voz não saiu pra dizer adeus ao Miguel… …pessoas cuja presença nos alivia… …também não deu pra falar pro Marcos… …pessoas que estão com você desde o início dos tempos… …”voa!!!”… …o plano sempre foi esse!!!… …pessoas que veremos logo adiante, ou que talvez não vejamos mais nessa vida… …sempre estarão conosco, pra sempre!!!

Tinha que terminar com essa... ...merci par tout!

Tinha que terminar com essa... ...merci par tout!

 

 

 

 

Digam o que disserem: deixamos o passado pra trás… …mas as pessoas trouxemos conosco… …por todo o tempo… …pra toda vida!!!

 

Na hora de entrar no corredor onde temos acesso ao freeshop, o tonto do Marcos me deu um pacote verde e pesado, como se já não tivéssemos bagagem suficiente, e o aviso: ” – só pode abrir no avião!”… …confesso que fiquei com medo do raio-x: caixa verde, pesada, de última hora, que o Marcos deu… ai, ai!!! Ganha um prêmio (é sério) quem adivinhar um dos itens!!!

 

Seguimos com todas aquelas malas pelo corredor. O pessoal do raio-X foi bastante compreensivo por causa das crianças, aliás tivemos prioridade desde a escolha dos lugares até o embarque. Foi difíci carregar tudo mais dois filhos. Legal… …já sabiamos disso! Mas muito sentimento e muita bagagem pra pouco tempo!

 

Duas ações pra depois… …a guitarra Rosa e o pacote verde!!! Essa duas eu guardo pra mim! Isso faz a diferença na vida da gente!

Próximo ‘post’: Montréal – dois meses de vida nova!!!

Sobre sonhos:

“Não interprete o sonho: viva-o ou esqueça-o”.

 

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